Curta-metragem e projeto de longa reconstituem saga de Frei Tio de Alencar nos cinemasA
tortura não deixa marcas apenas no corpo. Ela produz cicatrizes também
na alma, que podem se transformar em feridas que jamais cicatrizam.
A
metáfora é usada pelo cineasta Augusto César Mota Albuquerque, que, em
2008, começou a gravar o curta “SP 70”, filme que tem como foco
principal de suas lentes, a carta escrita pelo frei dominicano cearense
Tito de Alencar Lima (1945-1974) relatando, com riqueza de detalhes, as
sessões de torturas física e psicológica as quais foi submetido, durante
30 dias de prisão, na cela da Operação Bandeirantes (Oban), no presídio
paulista Tiradentes, em dezembro de 1969.
O filme tem apenas 17 minutos de duração, mas, ao todo, são cerca de sete horas de material gravado“Pesquisei
muito sobre a vida dele e queria abordar não apenas o lado político,
mas, sobretudo, o religioso e os delírios sofridos”, explica o cineasta
que assina a direção e o roteiro do filme.
Ele adianta que
possui sete horas de material gravado, suficiente para se aventurar no
projeto de um longa – aliás, este já possui um esboço bem adiantado. O
longa seria acrescido de outros países visitados pelo frei dominicano,
que virou símbolo da luta contra o regime de exceção no Brasil, citando a
França, onde morreu, e o Chile, pontua. Todo o texto que aparece no
filme é de autoria de Frei Tito, que suicidou-se na França, em 1974, aos
28 anos, vítima da repressão sofrida. Ele não suportou conviver com as
feridas na sua alma, que viraram delírios, na visão do cineasta. O filme
mergulha no aspecto subjetivo da trajetória do frei dominicano, cuja
vida já foi contada em diversos livros, peças de teatro, ganhou
biografia e, agora, vira curta, com promessa de chegar (de novo) à
telona.
No início, a obra foi batizada de “Paixão de Tito”.
Agora, o filme, que acaba de ser finalizado, tendo sido montado no ano
passado, prepara-se para ganhar o mundo. O destino são os festivais de
cinema, em especial os franceses. A opção pelo nome “SP 70”, justifica
ser um código, tão comum na época da ditadura militar, além de ser
também uma metáfora. Com 17 minutos de duração, avisa que é uma obra de
ficção, na qual o diretor recorre à poesia e a metáforas para falar
sobre os efeitos do regime militar no País. Discorre sobre conceito de
alienação, participação política e, sobretudo, os efeitos nefastos dessa
morte com a qual o torturado passa a conviver, como ocorreu com o padre
dominicano cearense. É justamente com esse aspecto subjetivo da vida de
Frei Tito de Alencar que o cineasta usa para trabalhar de maneira quase
artesanal a sua obra. “O curta está pronto”, festeja o cineasta, que
conta a proeza de conseguir realizar um filme no estilo de “mutirão”,
como ele próprio define, afirmando ter feito um caminho diferente. Não
contou com apoio financeiro de editais de arte, completando que “a ideia
era fazer um filme sem recursos”. O único texto que aparece no filme,
que não faz parte da carta de Frei Tito, é o diálogo entre um homem e um
a mulher, encontro que acontece na França.
“O cenário é da
época e o diálogo se dá entre um brasileiro e um francês”. Por ser
escrita em português, a francesa não consegue entender o que está
escrito (trecho da carta de Frei Tito). “Faço alusão a essa diversidade
de brasileiros espalhados pelo mundo, ressalta o diretor, que também
trabalha com o conceito de alienação. “Na época, muita gente não tinha
compreensão do que se passava”, diz.
O cineasta chama a atenção
para o texto escrito pelo frei dominicano, cuja perseguição política
começa em 1968, ao participar do Congresso da União Nacional dos
Estudantes (UNE), em Ibiúna, interior de São Paulo, ganhando prêmio
internacional. “Escrito na prisão, o texto conta com detalhes a tortura
sofrida, provocando-lhe distúrbios mentais”, relata, acrescentando que o
filme enfoca os delírios sofridos pelo religioso. “Ele foi submetido a
tratamento psiquiátrico na França”. Pela delicadeza do assunto, Augusto
Albuquerque optou por usar uma linguagem poética, marcada por metáforas.
A começar pela própria estruturação do filme. “Nossos personagens são
os leitores da carta”, diz, completando que o filme trabalha com o
conceito de alienação, daí fugir das músicas de cantores e compositores
considerados engajados politicamente. “As músicas não são politicas”.
“Ele
não é um filme linear e nem tem uma linha cronológica. A gente trabalha
com o inconsciente, os delírios de Frei Tito”, reitera o diretor. Como
toda obra reflete um pouco sobre a história de vida do autor, não é
diferente com o cineasta, cuja trajetória inclui militância política e
dois anos de estudos em Teologia, entre 2001 e 2002, em Fortaleza, além
de ter estudado em colégio de padres jesuítas. “Tinha vontade de fazer
um trabalho sobre a ditadura militar e quando li o texto de Frei Tito
chorei muito”, conta, afirmando ser impressionante a consciência do
religioso. Explica que não defendia a luta armada, mas o regime pensava.
A defesa de Frei Tito era pela democracia e tinha como base os ideias
cristãos. Aliás, uma metáfora no filme remete a essa concepção cristã de
que é necessário voltar a ser criança para conseguir o paraíso, no
sentido de pureza. E era isso que defendia Frei Tito, que volta a ser
criança na obra, mas no sentido teológico. Pode ser a chegada à vida
eterna, o retorno a sua terra natal, uma lembrança da infância, arbitra o
cineasta, explicando que cabe a cada um a leitura da cena.
No
curta, o padre dominicano é interpretado pelo ator Levi Mota, que
trabalha com mais outros 15 artistas, incluindo o veterano ator
cearense, Ary Sherlock, além de João Falcão e Cristine Góis, entre
outros. Apesar de ter 17 minutos, não se trata de documentário, explica o
cineasta, que diz não trabalhar com roteiro “amarrado”.
No filme,
reúne atores e não-atores, além de apostar na improvisação, como o texto
da carta, que os artistas recebiam na momento da gravação. Sobre o
encaminhamento do projeto, responde que “a gente ainda não decidiu como
vai fazer, mas certamente, sem comercialização”, diz, esclarecendo que o
contrato já prevê isso. “Vamos percorrer os festivais franceses, daí
manter o ineditismo por enquanto”.
Cartas reunidas em novo livroFrei Tito de Alencar morreu, na França, durante a Ditadura Militar: várias cartas foram escritas depois dissoCerca
de 30 cartas escritas após a morte de Frei Tito foram reunidas pelo
historiador Régis Lopes no livro “Cartas de Com-paixão”, que ele lança,
hoje, a partir das 17 horas, no Museu da Arte da Universidade Federal do
Ceará (Mauc/UFC). A publicação é o quarto volume da coleção “Ao
portador”, dedicada apenas a cartas de personalidades. O número anterior
trouxe missivas de Capistrano de Abreu. O projeto é do Instituto Frei
Tito.
De acordo com Régis Lopes, o material selecionado para o
livro é composto em sua maioria por acervo que estava em poder da
família de Frei Tito. “Não houve qualquer empecilho para que eu tivesse
acesso a elas. Era de interesse dos familiares tornar esse material
público”, conta.
A ideia, de acordo com Régis, não é falar de
Frei Tito, contar a sua trajetória, mas retratar as memórias que ficaram
após a sua morte. “Muitos morreram durante a ditadura, mas Frei Tito
virou um símbolo da luta pelos direitos humanos”, destaca.
Algumas
cartas já eram públicas, como a escrita pelo cartunista Henfil, em sua
coluna na revista Veja, nos anos 80. Régis destaca também a carta de Dom
Evaristo Arns para Frei Tito, em 1983, quando o corpo dele passou por
São Paulo, antes de vir para Fortaleza, vindo da França.
Resgate“A
leitura das cartas mostra de que forma foi construída a imagem de um
dos maiores mártires da América Latina. Não um mártir convencional, mas
um ligado às ideias da Teologia da Libertação”, acrescenta Régis. Para
ele, os temas que vêm à tona com o livro, como tortura e desrespeito aos
direitos humanos, são extremamente atuais, apesar do momento político
vivido pelo País hoje ser distinto do contexto no qual Frei Tito estava
inserido. “A tortura, por exemplo, ainda acontece em delegacias Brasil
afora, não mais por motivos políticos, como antigamente, mas é um
problema que existe”.
Mais informaçõesLançamento
do livro “Cartas de Com-paixão”, de Régis Lopes. Hoje, a partir das
17h, no Museu de Arte da UFC (Av. da Universidade, 2854, Benfica).
Contato: (85) 3366.7481
Iracema SalesRepórter